Thursday, June 09, 2005

C2: A Alquimia do Lobisomen.

Existe aquela conhecida tabela alquímica da relação entre os metais e os planetas. Muita gente sabe que essa relação existe, embora geralmente não a consigam explicitar de memória, que é o que se segue.

Sol - Ouro
Mercúrio - Mercúrio (esse é o que as pessoas costumam acertar... ;-)
Vênus - Cobre
Lua - Prata
Marte - Ferro
Júpiter - Estanho
Saturno - Chumbo

Podemos observar de imediato algumas associações interessantes:

1) Tanto o Sol como o Ouro estão associados à realeza. A coroa que é posta no alto (Alteza) da cabeça de um monarca costumava ser confeccionada desse material. Além disso, os reis costumavam ser coroados em momentos definidos pelos seus astrólogos. A tradição era que a coroação fosse feita ao meio-dia, momento em que o Sol está no ponto mais alto do dia (Alteza).

2) Assim como o Sol e Lua possuem uma importância especial no céu diurno e noturno, como que formando um só corpo (análogo ao Yin - Yang do Tao chinês). Também o ouro e a prata estão entre os metais mais nobres. Do ponto de vista químico, eles não reagem facilmente com outras substâncias. São várias as jóias valiosas confeccionadas nesses materiais, inclusive as duas primeiras medalhas esportivas.

3) Sangramentos e acidentes estão, na Astrologia, associados a Marte, o planeta vermelho, que é também a cor do ferro enferrujado. Curiosamente Marte é justamente vermelho por ser um planeta rico em ferro. É claro que os alquimistas "não-esclarecidos" (no sentido iluminista do termo) não teriam como saber disso. Bem como não teriam como saber do ferro presente nas hemácias, as células que tornam o sangue vermelho. Na verdade, eu fiquei chocado quando numa aula de Química, meu professor desenhou a fórmula orgânica da hemoglobina na lousa, dando ênfase ao ferro em seu centro.

Na realidade, o ferro é apenas um átomo solitário entre tantos outros átomos de carbono. A hemoglobina, vale lembrar, é a molécula presente na hemácea responsável pela captação do oxigênio, tendo portanto importante papel na respiração. Nessa aula nós estudávamos a presença de elementos inorgânicos em moléculas orgânicas. E o ferro, embora fosse único naquela molécula enorme e ele fosse inorgânico, era talvez o aspecto mais importante da hemoglobina. Me assombrou também imaginar que a hemácia é apenas uma parte do sangue, que a hemoglobina, por sua vez, é uma parte da hemácea e o ferro é apenas um átomo dentre muitos outros que constituem a hemoglobina. "E eu que quando me cortava achava meu sangue tão vermelho..." Eu pensei naquela aula em que descobria que não era tanto ferro assim... Mas claro, isso não diminui a importância do ferro no sangue e nem também o fato de que essa relação, quem sabe, foi curiosamente antecipada pela Alquimia e pela Astrologia bem antes de nossa ciência moderna. Naturalmente, isso também não tiraria mérito nenhum de nossa ciência, como às vezes dizem uns místicos afobados e exagerados, afinal alquimista ou astrólogo nenhum seria capaz de chegar à uma fórmula orgânica detalhada e precisa como a desenhada nesse link:

http://www2.uah.es/biomodel/model3/hemoglob.htm

Mas não percamos nosso senso crítico de vista. O mais provável mesmo é que a relação entre hemoglobina e alquimia não passe de uma mera coincidência. Afinal de contas, esse tipo de relação parece não ocorrer para os demais astros. Se houver ouro no Sol, por exemplo, isso não pareceria ser um fato marcante.

4) Saturno, o planeta da responsabilidade e do peso da matéria, está associado ao chumbo.

5) Mas eu gostaria de parar com esses exemplos digressivos e partir para o meu objetivo de hoje que é o de demonstrar mais uma vez a relação entre a Lua e o Lobisomen. É claro que podemos mencionar a imagem clássica dos lobos uivando para a Lua cheia. E certamente essa deve ser uma das primeiras explicações intuitivas que muitos leigos em Astrologia devem encontrar dentro de si para entender o vínculo Lua - Lobisomen, o que sem dúvida tem sua beleza. Mas também é belo, e isso costuma passar desapercebido de muitos, lembrar que o Lobisomen deve ser morto por uma bala de prata, ou seja, por uma bala que é regida pela própria substância lunar. A mesma Lua que o enlouqueceu.

Isso me lembra uma das lições que um sábio pregou a certa corte. O rei havia enlouquecido. Pediram ao sábio que o curasse. O sábio por sua vez preferiu chamar um louco para cuidar da tarefa. Sem entender nada, a corte ficou boquiaberta, mas o próprio louco tratou de explicar: "Somente um louco pode curar outro louco".

2 comments:

Bla bla said...

Henrique, existe algum metal ralacionado com plutão?
Quanto a Ariosto, te indicaria o livro mesmo... Cham Orlando Furioso, tem uma versão perfeita biligue, com uma tradução maravilhosa.. Mas é bastante dificil de ler pois o tradutor manteve uma serie de aspectos formais na versão em portugues...
Vou buscar algumas indicações e te passo...
Bjão

Henrique said...

Oi Ilá,

Não acho impossível que haja alguma forma de relacionar algum metal a Plutão, talvez exista algum paralelo com o deus greco-romano Hades -Plutão, por exemplo.

Mas ter relacionado diretamente com o planeta é algo que eu acho improvável que os alquimistas o tenham feito, afinal o planeta Plutão só foi descoberto pelos astrônomos no século XX, devido à perturbação gravitacional na órbita de Netuno.

Como os alquimistas só podiam observar o céu a olho nu, eles só conheciam os planetas até Saturno.